Extensão · Licenciatura em Matemática · IFMA

Curricularização da Extensão

Quando a extensão entra no currículo, a escola pública deixa de ser apenas o lugar para onde o licenciando irá um dia e passa a ser, desde já, lugar de formação. Em 2026.1, a turma de Licenciatura em Matemática levou oficinas, jogos e desafios a três escolas de São Luís e ao próprio campus.

  • 5ações de extensão
  • 4espaços: 3 escolas públicas e o campus
  • 6º–9ºanos do Ensino Fundamental
  • 2026.1março a junho

01

O que é a curricularização da extensão

A Constituição Federal estabelece a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (art. 207). O Plano Nacional de Educação (Lei nº 13.005/2014, meta 12, estratégia 12.7) transformou esse princípio em exigência concreta: ao menos 10% dos créditos curriculares da graduação devem ser cumpridos em programas e projetos de extensão. A Resolução nº 7/2018 da Câmara de Educação Superior do Conselho Nacional de Educação (CNE/CES) regulamentou a medida, fixando esse mínimo sobre a carga horária curricular dos cursos, e definiu a extensão como processo interdisciplinar, educativo, cultural, científico e político, que promove a interação transformadora entre a instituição e a sociedade.

Na Licenciatura em Matemática do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA), Campus São Luís – Monte Castelo, essa carga horária é cumprida em componentes curriculares próprios. Neles, o licenciando planeja com os colegas, testa as propostas entre pares e só então vai à escola — não para substituir o professor da turma, mas para retomar o que o professor da turma já ensinou por outra via: a experimentação e o jogo.

02

Curricularização da Extensão V — 2026.1

O componente foi orientado pela Profa. Déa Nunes Fernandes, pesquisadora do GEPEMA. Entre 31 de março e junho de 2026, a turma realizou cinco ações em três escolas públicas de São Luís — Escola Estefânia Rosa, Unidade Integrada Jarbas Passarinho e Unidade Integrada Governador Matos Carvalho — e no campus, durante a ação Partiu IFMA, atendendo estudantes do 6º ao 9º ano do Ensino Fundamental.

As escolas apresentavam turmas com defasagens importantes em conteúdos de base e pouca disponibilidade de material didático. A resposta da turma foi metodológica: recursos manipuláveis de baixo custo, dinâmicas cooperativas e problemas que partem do espaço vivido pelos próprios alunos.

03

Três eixos de trabalho

As ações foram organizadas em três eixos, que se sucedem e se reforçam.

1
Planejamento colaborativo A turma dividiu-se em equipes por área — Álgebra, Geometria, Matemática Financeira e Aritmética. Cada equipe apresentava sua proposta aos colegas, que a testavam antes de ela chegar à escola: a simulação entre pares servia para ajustar regras, tempo e clareza das instruções. Dessa etapa nasceram produtos educacionais autorais, como o Jogo dos Juros e o desafio O Sumiço da Dona Márcia.
2
Materiais concretos e manipuláveis Na perspectiva do laboratório de ensino de Matemática como espaço de experimentação, e não de depósito de materiais (MISKULIN, 2009), as oficinas deslocaram o conceito do quadro para as mãos: peças encaixáveis para deduzir relações métricas, sólidos de acrílico preenchidos com água para verificar volumes, a própria sala de aula medida com trena.
3
Gamificação e cooperação Com Vygotsky (1984), o jogo foi tomado como situação imaginária regida por regras, capaz de gerar motivos para agir. Em grupos, sob a pressão amigável do tempo, o erro deixou de ser motivo de punição e passou a ser um dado a discutir com a equipe.

As cinco ações de 2026.1

Em ordem cronológica. Cada ação registra o que foi feito e o que ela revelou — inclusive quando o resultado ficou aquém do planejado.

  1. · Geometria plana

    Relações métricas no triângulo retângulo

    Local
    Escola Estefânia Rosa
    Público
    Ensino Fundamental

    Como foi. Com kits de peças encaixáveis, uma tabela-guia e cartões com perguntas, os grupos montaram o triângulo retângulo maior a partir dos menores, observaram semelhanças e proporções e registraram o que viam. Nenhuma fórmula foi dada de antemão.

    O que revelou. Os próprios alunos chegaram às relações métricas. A percepção de que o quadrado da altura corresponde ao produto das projeções surgiu da manipulação das peças, e não de uma regra escrita no quadro.

  2. · Jogos e raciocínio lógico

    Exposição de jogos matemáticos

    Local
    Unidade Integrada Jarbas Passarinho
    Público
    6º ao 9º ano

    Como foi. A convite da direção, a turma ocupou a escola por uma manhã inteira com estandes de jogos. As turmas se revezavam a cada meia hora, de modo que toda a escola passasse pelo circuito.

    O que revelou. O engajamento foi alto e a cooperação entre os alunos, espontânea. A ação também revelou um dado inesperado: parte dos estudantes não conhecia jogos tradicionais como o dominó, e foi preciso ensinar o jogo antes de chegar à Matemática.

  3. · Geometria espacial

    Geometria espacial: volume e capacidade

    Local
    Escola Estefânia Rosa
    Público
    Ensino Fundamental

    Como foi. Os alunos calcularam o volume de prismas e pirâmides de acrílico e depois os encheram de água para conferir o cálculo. Em seguida, mediram a sala com trena para estimar quantos litros seriam necessários para enchê-la.

    O que revelou. A coincidência entre o valor calculado e a água contida nos sólidos surpreendeu os alunos. Já no desafio da sala, a medição foi feita com facilidade, mas a formalização do cálculo travou: apenas um grupo concluiu. O registro indica que, nessa turma, a passagem do concreto à fórmula exigiu mais tempo do que o previsto.

  4. · Aritmética

    Números inteiros e suas operações

    Local
    Unidade Integrada Governador Matos Carvalho
    Público
    8º ano

    Como foi. Depois de retomar os conceitos, a turma desenhou uma reta numérica no chão e propôs um cabo de guerra humano, guiado por dados que definiam os números e as operações. Na sequência, um jogo de cartas desafiava as equipes a combinar os valores dos dados com as quatro operações para eliminar as cartas do adversário.

    O que revelou. Deslocar o próprio corpo na reta deu sentido aos sinais positivo e negativo, e a disputa acelerou o cálculo mental. A timidez inicial, inclusive entre meninos e meninas, exigiu da equipe um esforço deliberado de acolhimento até que a turma toda participasse.

  5. junho de 2026 · Frações

    Escape Room: O Sumiço da Dona Márcia

    Local
    IFMA Campus São Luís – Monte Castelo (Partiu IFMA)
    Público
    9º ano, escolas parceiras

    Como foi. A partir da leitura dramatizada do desaparecimento de uma professora de Matemática, grupos mediados por monitores percorreram os cômodos de uma casa: cozinha (subtração de frações), quarto (adição), sala (multiplicação) e garagem (média). Para abrir o envelope seguinte, era preciso reconhecer a resposta certa em cartões que a apresentavam como fração equivalente, número decimal ou figura.

    O que revelou. A maioria das equipes resolveu o circuito até a pista final, e as que não concluíram pararam na última etapa. A validação por representações equivalentes transformou a conferência da resposta em um novo desafio, articulado à preparação para o processo seletivo do Instituto.

Produtos educacionais da turma

O planejamento colaborativo também produziu recursos autorais. O Jogo dos Juros é um simulador de estratégia financeira em cartas, com orçamento mensal, eventos de mercado, juros e inflação, apresentado e debatido nas reuniões da turma. O Sumiço da Dona Márcia é o desafio investigativo de frações aplicado no Partiu IFMA.

04

O que a extensão ensinou a quem vai ensinar

O relatório da turma registra que a ida à escola antes do fim da licenciatura confrontou as teorias estudadas com a realidade heterogênea da escola pública. Planejar para turmas reais exigiu transposição didática: encontrar, para números inteiros ou volumes, a forma concreta ou lúdica que torna o conceito pensável.

Também exigiu reajustar o planejamento em tempo real — diante de estudantes que não conheciam as regras do dominó, ou que ainda não conseguiam formalizar o cálculo de volume. A escuta, a flexibilidade e a consciência da função social de quem ensina Matemática aparecem, no relato dos licenciandos, como aprendizagens tão importantes quanto os conteúdos.

Registro e créditos

Relatório elaborado pelos licenciandos Naiane Boaz Costa Leite e Pedro Alexandre da Silva de Oliveira, sob orientação da Profa. Déa Nunes Fernandes.

Para proteger a imagem de crianças e adolescentes (Estatuto da Criança e do Adolescente — ECA, art. 17; Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — LGPD, art. 14), as fotos publicadas aqui mostram materiais e atividades, com os rostos dos estudantes fora do enquadramento ou desfocados.

Referências

  • BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF: Presidência da República, 1988.
  • BRASIL. Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990. Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 16 jul. 1990.
  • BRASIL. Lei nº 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação - PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 26 jun. 2014.
  • BRASIL. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 15 ago. 2018.
  • BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Superior. Resolução nº 7, de 18 de dezembro de 2018. Estabelece as Diretrizes para a Extensão na Educação Superior Brasileira e regimenta o disposto na Meta 12.7 da Lei nº 13.005/2014, que aprova o Plano Nacional de Educação - PNE 2014-2024 e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, 19 dez. 2018.
  • LEITE, Naiane Boaz Costa; OLIVEIRA, Pedro Alexandre da Silva de. Curricularização de Extensão V: relatório de intervenções pedagógicas e oficinas de matemática no chão da escola pública. Orientadora: Déa Nunes Fernandes. São Luís: IFMA, [2026]. Relatório de componente curricular (Licenciatura em Matemática).
  • MISKULIN, Rosana Giaretta Sguerra. As potencialidades didático-pedagógicas de um laboratório em educação matemática mediado pelas TICs na formação de professores. In: LORENZATO, Sergio (org.). O laboratório de ensino de matemática na formação de professores. 2. ed. Campinas: Autores Associados, 2009.
  • VYGOTSKY, Lev Semenovich. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. São Paulo: Martins Fontes, 1984.

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