Núcleo VIII do eixo estruturante
Conhecimento Matemático, Ensino e Aprendizagem
Obstáculos conceituais, representações e dificuldades de aprendizagem — sem supor que a ontogênese repete a história.
Obstáculos conceituais e representações
A noção de obstáculo epistemológico, cunhada por Gaston Bachelard (1938) para descrever como certos conhecimentos já estabelecidos podem, paradoxalmente, dificultar a aquisição de conhecimentos novos, foi adaptada à didática da matemática por Guy Brousseau (1997) para explicar erros de estudantes que não são meras lacunas de informação, mas resistências produzidas pelo próprio conhecimento anteriormente construído. Um estudante que domina bem os números naturais, por exemplo, pode resistir à ideia de que multiplicar sempre aumenta um número — resistência que não desaparece por repetição, porque está ancorada num conhecimento prévio genuíno e útil em outro domínio.
Brousseau (1997) distingue esse obstáculo epistemológico, inerente à própria estrutura do conhecimento matemático, do obstáculo didático, produzido por uma escolha específica de ensino, e do obstáculo ontogenético, ligado ao desenvolvimento cognitivo do estudante — uma distinção que evita tratar toda dificuldade de aprendizagem como sintoma de um único problema.
Paralelamente, Raymond Duval (1995) argumentou que o acesso a um objeto matemático se dá sempre por meio de representações semióticas — símbolos, gráficos, expressões algébricas —, e que a compreensão matemática depende da capacidade de converter uma representação em outra sem perder o objeto que ambas designam. Um estudante que resolve uma equação algebricamente, mas não reconhece a mesma relação em um gráfico, não domina apenas uma técnica isolada: ainda não articulou os diferentes registros pelos quais aquele mesmo objeto pode ser representado.
Dificuldades de aprendizagem e estratégias didáticas
Gérard Vergnaud (1990), com a teoria dos campos conceituais, propôs que um conceito matemático não é aprendido de uma só vez, mas se constrói lentamente através de um conjunto amplo de situações que lhe dão sentido, de invariantes que o estudante progressivamente identifica e de representações simbólicas que passa a dominar. Essa perspectiva desloca o foco de uma estratégia didática isolada e eficaz para todos os casos rumo ao desenho de sequências de situações que exponham o estudante à variedade de contextos em que um conceito realmente opera.
Essa mesma lógica dialoga com a distinção entre concepção processual e objetal de um conceito matemático — já discutida, quanto a Sfard, na bibliografia do Cálculo I deste Laboratório —, e com a distinção entre imagem conceitual e definição conceitual formulada por Vinner e Dreyfus, também já catalogada: uma estratégia didática que ignora a imagem conceitual real do estudante, por mais correta que seja a definição apresentada em aula, dificilmente produz aprendizagem duradoura.
Dificuldade histórica × dificuldade de aprendizagem (distinção explícita)
É tentador supor que as dificuldades enfrentadas por matemáticos ao longo da história — a resistência aos números negativos, a desconfiança em relação ao infinito actual, discutida no Núcleo III deste eixo — se repetem, ponto por ponto, nas dificuldades de estudantes de hoje: essa suposição, às vezes chamada de tese recapitulacionista, sugere que a aprendizagem individual reproduziria em miniatura o desenvolvimento histórico coletivo do conhecimento.
A historiografia crítica já discutida no Núcleo I deste eixo (ROQUE, 2012) é, precisamente, uma advertência contra esse tipo de paralelismo simples: a Matemática não avançou por uma sequência linear de superação de obstáculos que todo estudante precisaria refazer, mas por um processo histórico contingente, situado em condições sociais, institucionais e conceituais irrepetíveis. Um estudante de hoje não está na mesma posição de um matemático do século XVII, porque dispõe de uma notação, um vocabulário e um conjunto de resultados já consolidados que aquele matemático não tinha.
Isso não significa que a história da Matemática seja irrelevante para entender as dificuldades de aprendizagem — ao contrário: obstáculos epistemológicos identificados por Brousseau (1997) muitas vezes têm, de fato, um análogo histórico documentável, e essa coincidência pode iluminar por que certos erros são tão recorrentes. O ponto é mais preciso: a relação entre dificuldade histórica e dificuldade de aprendizagem é uma questão empírica e teórica a ser investigada caso a caso, não uma equivalência a ser presumida.
Referências
Bibliografia real e verificada, usada por citação indireta. Este núcleo não duplica Sfard e Vinner & Dreyfus, já catalogados na bibliografia do Cálculo I do Laboratório Virtual G, nem a crítica historiográfica já feita no Núcleo I deste eixo — apenas os pressupõe e remete a eles.
- BROUSSEAU, Guy. Theory of didactical situations in mathematics: didactique des mathématiques, 1970-1990. Trad. e ed. Nicolas Balacheff et al. Dordrecht: Kluwer Academic Publishers, 1997.
- BACHELARD, Gaston. La formation de l'esprit scientifique. Paris: Vrin, 1938.
- DUVAL, Raymond. Sémiosis et pensée humaine: registres sémiotiques et apprentissages intellectuels. Bern: Peter Lang, 1995.
- VERGNAUD, Gérard. La théorie des champs conceptuels. Recherches en Didactique des Mathématiques, v. 10, n. 2-3, p. 133-170, 1990.