MatLabG · Experiência demonstrativa
Poliedros e a relação de Euler
Contar, explodir, testar: um invariante que atravessa a química, a biologia e a topologia.
Relação com o Laboratório Virtual G
Teoria e experimentação: explorar todos os vínculosPergunta científica
A quantidade V − A + F é a mesma para todo poliedro? Se não for, de que depende: das medidas, do número de faces ou da forma?
Hipóteses
- As faces são polígonos planos e cada aresta é lado de exatamente duas faces.
- Para os poliedros convexos, o Capítulo 17 enuncia V − A + F = 2; a experiência testa esse enunciado e procura seus limites.
- Os modelos moleculares e biológicos são idealizações: átomos e subunidades são representados por pontos, e ligações por segmentos.
Domínio e modelo
Poliedros cuja superfície é formada por polígonos planos. Os sete sólidos da experiência estão inscritos numa esfera de raio 1 (unidade arbitrária); a escala não altera nenhuma contagem.
Superfície poliédrica descrita por vértices (pontos), arestas (segmentos) e faces (polígonos).
- V
- número de vértices
- A
- número de arestas
- F
- número de faces
- n
- número de lados de cada face (poliedros de Platão)
- m
- número de arestas que concorrem em cada vértice (poliedros de Platão)
Procedimento
- Escolha o tetraedro. Antes de usar qualquer ferramenta, conte V, A e F só observando, e anote no registro.
- Ative Contar e confira sua contagem elemento por elemento (use Passo para ir um a um).
- Afaste as faces com Explosão. Cada face leva as próprias arestas: conte todos os lados e compare com A. Por que o resultado é 2A?
- Repita para cubo, octaedro, dodecaedro e icosaedro. Complete o registro e calcule V − A + F.
- Teste o icosaedro truncado, modelo da molécula C₆₀. A relação continua valendo? Quantos pentágonos ele tem?
- Teste a moldura (um prisma com furo passante). Compare V − A + F com os anteriores e formule uma conjectura sobre a causa.
- No quadro Por que só cinco?, percorra os pares (n, m) e relacione a desigualdade com os cinco poliedros de Platão.
Experiência
- V
- –
- A
- –
- F
- –
- V − A + F
- –
- Soma dos lados das faces
- –
Teclado
Com a cena em foco: setas giram; + e − aproximam e afastam; 0 restaura a vista; Espaço reproduz ou pausa; . avança um passo; F alterna a tela cheia (Esc sai). Com o mouse: arrastar gira, rolar aproxima, botão direito desloca.
Registro
Anote suas contagens e confira. O retorno aponta o que revisar sem entregar a resposta; use Mostrar valores só depois de tentar.
| Sólido | V | A | F | V − A + F | Retorno |
|---|---|---|---|---|---|
| Tetraedro | – | ||||
| Cubo (hexaedro) | – | ||||
| Octaedro | – | ||||
| Dodecaedro | – | ||||
| Icosaedro | – | ||||
| Icosaedro truncado (C₆₀) | – | ||||
| Moldura (não convexo) | – |
- (n − 2)(m − 2) < 4: existe poliedro de Platão
- (n − 2)(m − 2) = 4: mosaico regular do plano
- (n − 2)(m − 2) > 4: não existe
Teclado
Com o gráfico em foco: setas movem o cursor; Enter abre o sólido na cena 3D; Espaço reproduz ou pausa a varredura; ponto (.) avança um passo; F alterna a tela cheia.
Conexões com a realidade e com outras áreas
Cada conexão traz uma aplicação resolvida: a situação, o modelo, o cálculo passo a passo e uma leitura crítica do resultado. Mude os dados para recalcular.
-
Química
Metano: um tetraedro com o carbono no centro
Na molécula de metano (CH4), os quatro átomos de hidrogênio ocupam os vértices de um tetraedro regular e o carbono ocupa o centro. O ângulo entre duas ligações é o ângulo entre dois raios do tetraedro, arccos(−1/3) ≈ 109,5°: um valor que a geometria do Capítulo 17 permite calcular e que a química mede.
Fonte: [6]
Como usar: aplicação resolvida
No metano, cada ligação C–H mede cerca de 109 pm (picômetros). Qual é a distância entre dois átomos de hidrogênio?
Modelo: H nos vértices de um tetraedro regular, C no centro: ângulo H–C–H = arccos(−1/3); lei dos cossenos no triângulo H–C–H.
- Ângulo entre dois raios do tetraedro: θ = arccos(−1/3) ≈ 109,47°.
- Lei dos cossenos: HH² = d² + d² − 2·d·d·cos θ = 2d²(1 + 1/3) = (8/3)·d².
- HH = d·√(8/3) = 109 · 1,633 ≈ 178 pm.
Resultado: Distância H–H ≈ 178 pm.
Leitura crítica: O cálculo usa só a geometria do tetraedro. Medidas reais variam um pouco, porque os átomos vibram e a ligação não é um segmento rígido.
-
Química
Fulereno C₆₀: Euler numa molécula
Em 1985 foi identificada uma molécula com 60 átomos de carbono dispostos nos vértices de um icosaedro truncado: 12 faces pentagonais, 20 hexagonais e 90 ligações. Conte na experiência: 60 − 90 + 32 = 2. A descoberta rendeu o Prêmio Nobel de Química de 1996 a Curl, Kroto e Smalley.
Fonte: [4]
Como usar: aplicação resolvida
Uma molécula de carbono tem forma de casca fechada formada por pentágonos e hexágonos, com três ligações em cada átomo. Com h hexágonos, quantos átomos (V) e ligações (A) ela tem?
Modelo: V − A + F = 2; 2A = 5p + 6h (soma dos lados das faces); 3V = 2A (três arestas por vértice). Daí p = 12.
- Pela relação de Euler, p = 12 pentágonos, qualquer que seja h.
- Faces: F = p + h = 12 + 20 = 32.
- Arestas: 2A = 5·12 + 6·20 = 180 ⇒ A = 90.
- Vértices: 3V = 2A ⇒ V = 60.
- Conferência: V − A + F = 60 − 90 + 32 = 2.
Resultado: C60: 60 átomos de carbono e 90 ligações.
Leitura crítica: Com h = 20 obtém-se o C₆₀. A contagem é necessária para a existência da molécula; a química decide se ela é estável.
-
Biologia
Capsídeos virais e os doze pentágonos
Muitos vírus protegem seu material genético numa cápsula de proteínas com simetria icosaédrica. Na teoria de Caspar e Klug, essas cápsulas combinam hexâmeros e exatamente doze pentâmeros. A relação de Euler explica o doze: numa superfície fechada formada só por pentágonos (p) e hexágonos (h), com três faces em cada vértice, vale 2A = 5p + 6h e 3V = 2A; substituindo em V − A + F = 2, obtém-se p/6 = 2, isto é, p = 12, qualquer que seja h. A bola de futebol clássica de 32 gomos obedece à mesma conta.
Fonte: [5]
Como usar: aplicação resolvida
Na teoria de Caspar e Klug, um capsídeo icosaédrico com número de triangulação T tem 60T proteínas, organizadas em 12 pentâmeros e 10(T − 1) hexâmeros. Quantas unidades há para um dado T?
Modelo: Proteínas = 60T; pentâmeros = 12 (relação de Euler); hexâmeros = 10(T − 1); conferência: 5·12 + 6·10(T − 1) = 60T.
- Proteínas: 60 · 3 = 180.
- Pentâmeros: 12 (os mesmos 12 pentágonos exigidos pela relação de Euler).
- Hexâmeros: 10 · (3 − 1) = 20.
- Conferência: 5 · 12 + 6 · 20 = 180 = 60T.
Resultado: 180 proteínas em 12 pentâmeros e 20 hexâmeros.
Leitura crítica: Só alguns valores de T ocorrem (T = h² + hk + k², com h e k inteiros: 1, 3, 4, 7, 9, 12, 13, …). Valores fora dessa lista não formam capsídeo icosaédrico.
-
Probabilidade
Dados honestos
Os dados de 4, 6, 8, 12 e 20 faces usados em jogos são os cinco poliedros de Platão. Em cada um, qualquer face pode ser levada a qualquer outra por uma simetria do sólido; por isso, num dado homogêneo, as faces são equiprováveis. É a simetria, e não apenas a igualdade das faces, que sustenta o modelo probabilístico.
Como usar: aplicação resolvida
Num jogo, lança-se k vezes um dado honesto de N faces (N = 4, 6, 8, 12 ou 20). Qual a probabilidade de sair a face máxima pelo menos uma vez? E o valor médio de um lançamento?
Modelo: Faces equiprováveis por simetria: P(face) = 1/N; P(pelo menos uma vez em k) = 1 − (1 − 1/N)ᵏ; média = (N + 1)/2.
- Cada face: P = 1/20 = 0,05.
- Não sair a face máxima em k lançamentos: (1 − 1/20)^10 = 0,5987.
- Pelo menos uma vez: 1 − 0,5987 = 0,4013 (40,1%).
- Média de um lançamento: (20 + 1)/2 = 10,5.
Resultado: P ≈ 40,1%; média 10,5.
Leitura crítica: O modelo supõe dado homogêneo; a simetria do poliedro de Platão garante faces equivalentes.
-
História e epistemologia da matemática
Provas, refutações e "monstros"
Euler publicou a relação em 1758. Na história que se seguiu, surgiram sólidos que a contrariavam, como a moldura com furo desta experiência. Lakatos analisou esse debate para mostrar como definições, provas e contraexemplos se ajustam uns aos outros. Hoje, V − A + F é entendido como um invariante topológico: vale 2 para superfícies equivalentes à esfera e 0 para as equivalentes ao toro.
Como usar: aplicação resolvida
Um sólido com furos é descrito pelas contagens V, A e F. Quantos furos (gênero g) sua superfície tem?
Modelo: Característica de Euler χ = V − A + F = 2 − 2g, para superfícies fechadas orientáveis com g furos.
- χ = V − A + F = 16 − 32 + 16 = 0.
- g = (2 − χ)/2 = (2 − 0)/2 = 1.
Resultado: Superfície com 1 furo.
Leitura crítica: Com os valores iniciais (a moldura da experiência), χ = 0 e g = 1: a moldura tem a forma de um toro. Por isso V − A + F = 2 não vale para ela.
Limites do modelo
- A relação V − A + F = 2 vale para poliedros convexos e, mais geralmente, para os que têm a forma (topológica) de uma esfera. A moldura tem a forma de um toro e dá 0.
- Modelos moleculares idealizam: átomos não são pontos e ligações não são segmentos rígidos; as distâncias e os ângulos reais vêm de medições.
- Os capsídeos reais aproximam a simetria icosaédrica; a contagem dos doze pentâmeros supõe uma casca fechada, com três faces por vértice.
- Girar e contar não demonstra: a experiência produz evidência e conjecturas. As demonstrações estão no Capítulo 17 do Laboratório Virtual G.
Síntese
- Cada aresta é lado de exatamente duas faces: 2A é a soma dos lados de todas as faces.
- Nos poliedros convexos, V − A + F = 2, sejam eles regulares ou não (o icosaedro truncado também obedece).
- A relação depende da forma da superfície, não das medidas: a moldura, com um furo, dá 0.
- A condição (n − 2)(m − 2) < 4 admite só cinco pares (n, m): por isso existem exatamente cinco poliedros de Platão.
- Numa casca fechada de pentágonos e hexágonos com três faces por vértice há sempre 12 pentágonos: a mesma conta vale para o C₆₀, para os capsídeos virais e para a bola de futebol.
Voltar ao conteúdo no Laboratório Virtual G para formalizar nas atividades.
Referências
- EULER, L. Elementa doctrinae solidorum. Novi Commentarii Academiae Scientiarum Petropolitanae, São Petersburgo, v. 4, p. 109-140, 1758.
- LAKATOS, I. Provas e refutações: a lógica da descoberta matemática. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
- RICHESON, D. S. Euler's gem: the polyhedron formula and the birth of topology. Princeton: Princeton University Press, 2008.
- KROTO, H. W. et al. C60: buckminsterfullerene. Nature, London, v. 318, n. 6042, p. 162-163, 1985.
- CASPAR, D. L. D.; KLUG, A. Physical principles in the construction of regular viruses. Cold Spring Harbor Symposia on Quantitative Biology, Cold Spring Harbor, v. 27, p. 1-24, 1962.
- ATKINS, P.; JONES, L. Princípios de química: questionando a vida moderna e o meio ambiente. 5. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012.
- DOLCE, O.; POMPEO, J. N. Fundamentos de matemática elementar, 10: geometria espacial, posição e métrica. 7. ed. São Paulo: Atual, 2013.